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agosto 17, 2005
U2 Review

Foto: Inês
A minha primeira vez…
Domingo, 14 de Agosto de 2005, já não sou virgem… como dizem que existe uma primeira vez para tudo, esta é a minha primeira vez num concerto dos U2. Aos 21 anos perdi a inocência, no mesmo dia em que os U2 se tornaram ‘portugueses’ graças à condecoração da Ordem da Liberdade, entregue pelo Presidente da República Jorge Sampaio, por todas as acções no âmbito político, que a banda encabeça desde o seu início.
Podia contar como descobri os U2 mas poupo-vos da maçada, e a questão não é como se descobre, mas a forma como se sente, as coisas são ‘descobertas’ no momento certo!
Perdoem por isso o excesso de euforia quando descrever o concerto mas depois da odisseia (qual Homero) para conseguir dois bilhetes, e de ser este o concerto que inaugura os muitos que, se o Divino Arquitecto permitir, uma série de tantos outros.
A vontade de absorver tudo, à velocidade do som, para não perder pitada, faz com que a minha memória por vezes salte pormenores que me vou lembrando aos poucos, por isso experiências que para mim foram fascinantes sejam perfeitamente banais para outros ou que pormenores me tenham escapado. Lanço desde já o repto, participem, contem as vossas experiências oito anos depois da última estada dos U2 em Portugal, 11 de Setembro de 1997.
O ambiente estava como se queria, fantástico, tudo pessoal boa onda, sem problemas, as naturais quebras de tensão de quem desespera em busca de um lugar pertinho do palco, mas como ouvi dizer para lá: ‘Pelos U2, tudo!’
Se no balanço do concerto posso dizer que este foi o concerto da minha vida (e já vi alguns), os U2 rebentaram bem a escala, o mesmo não se diz da organização: ZERO! Uma verdadeira vergonha! Sem qualquer tipo de indicação de entrada para topos, relvados, bancadas etc., limitamo-nos a seguir o que o bilhete indica; o meu topo inferior, porta 2.
Permitam-me então que vos conte o que aconteceu após estar meia hora na fila de entrada da porta 2, o steward, no alto da sua infinita paciência, manda-nos para a porta 3, RELVADO. A primeira falha começa aqui. A fila para topo inferior e relvado, tudo junto podem imaginar que era gigantesca, o pior foi mesmo quando de uma barreira secundária alguém da organização se lembrou de deixar entrar toda a gente literalmente à bruta que nos abalroou contra as vedações, foi nesse momento que a confusão se instalou, pessoas perdidas dos respectivos pares etc., uma valente negativa para toda a organização do concerto.
Qual cordeirinhos, lá fomos nós pelo túnel de acesso ao relvado. Verificações de bilhetes perguntam. Isso existiu??? Para terem uma ideia, numa primeira barreira verificaram apenas se eu estava no sector certo, foi quando em jeito de peregrinação fomos para o acesso à garagem (que dava para o relvado que por sua vez dava para o meu acesso ao topo inferior; como vêm foi uma odisseia dentro da odisseia) onde se cantou mesmo Ave Ave, Ave Maria, numa evocação das peregrinações ao Santuário da Cova da Iria, a diferença era pouca, só o protagonista muda, a vontade era a mesma.
Numa segunda barreira verificaram novamente os bilhetes sem fazer qualquer tipo de controlo de bilhetes falso. Terceira barreira, o mesmo episódio. Torniquetes, ou barreiras de inspecção, apenas viram a minha mala, sim, porque eu tenho cara de espalha brasas! Um metro à frente, ainda nos torniquetes, à espera da milagrosa verificação do bilhete, apenas me cortou a pontinha do bilhete, e mais nada. Conclusão: amigos do mercado negro, vocês facturaram que se fartaram e nem foram apanhados, hã, grande negócio, com uma organização destas…
Finalmente no fosso de Alvalade, andei mais uma vez à procura de sítio para ir, sem informação, sem nada, lá descobri que se tinha de entrar pelo relvado para passar pelo passadiço e ir para a bancada.
De louvar a paciência de todo o staff e de toda equipa de stewards que aturavam as mesmas perguntas vezes e vezes sem conta.
Era engraçado ver o público na dimensão multinacional que Bono de certo deverá ter apreciado, desde espanhóis que eram aos magotes (cheguei a perguntar afinal de contas onde é que estava a ver o concerto), irlandeses, alemães, italianos que também ouvi para lá, venezuelanos e alguns mexicanos que encontrei, ah, e vejam bem… portugueses. Tudo me vez colocar uma questão… onde é que arranjaram os bilhetes visto que passado cinco horas da abertura das bilheteiras FNAC, ABEP etc. no dia 24 de Janeiro estava tudo esgotado?? Poderá ser venda posterior mas naquela quantidade?
Quanto à primeira parte, Keane falharam devido a problemas de saúde do vocalista, Kaiser Chief foram para mim uma surpresa, conhecia apenas uma música, foi uma agradável descoberta apesar de ter preferido Franz Ferdinand, isto na minha humilde opinião.
22 Horas, qual pontualidade britânica caso não fossem irlandeses, chega a saudação de Bono e amigos no palco de Alvalade, numa sempre discreta aparição que deixa a música fazer o que faz de melhor, encantar.
A abrir, como foi habitual em todas os espectáculos da tour Vertigo, e Portugal não foi excepção, Vertigo com um Um, Dois, Três, Catorze, bem português e bem audível que me tentava fazer acreditar que estava ali, a ver os U2, o que deve ter acontecido lá para a terceira ou quarta música.
Mas a verdadeira bomba veio com I Will Follow, grande grande música, que acompanhada de Electric Co., ambas de Boy (1980), meteram aquele pessoal todo, eu incluída, em delírio!
Várias vezes, embora longe, far far away, reparei que Bono deixara pura e simplesmente de cantar tal não era o público barulhento, dava a sensação, e perdoem-me o estrangeirismo mas não encontro melhor expressão, overwhelmed com a recepção.
Elevation foi um estoiro, o uhuhuuhuh do início da música prolongou-se sem que Bono tivesse de se cansar muito, a música ficou praticamente toda por nossa conta! Acho que foi nesse momento, em que ouvi The Edge na sua potência, que acreditei. Aquilo não era um holograma, eu estava mesmo num concerto dos U2.
Beautiful Day, palavras para quê, misturada com êxitos dos Beatles como Sgt Peppers e Black Bird, e que inaugura algumas das homenagens que Bono faria durante o concerto.
Foi nessa altura que me lembro do Bono dizer qualquer coisa como: ‘Bonita noite!’ Aliás a relação com o público foi sempre fantástica, para além do concerto/comício que se conhece pelos concertos dos U2 onde o alerta para os problemas da pobreza extrema são evidenciados e faz de nós, simples e comuns mortais, a principal arma pedindo a intervenção junto dos políticos para ajudar África e que Portugal deveria ‘liderar a luta e não ser um seguidor da luta’, referido intervenções junto do Primeiro-Ministro Sócrates (escusado será dizer, monumental buh!). A igualdade seja a nível racial, ideológico, religioso etc. destacando os atentados e citando Bono: ‘Não nos tornemos um monstro, para combater o monstro. ‘, passando mensagens de alerta e de despertar de consciências adormecidas.
Como se isso não bastasse, pela boca do próprio do Bono, ouvimos todos, 52 mil testemunhas que The Edge, Larry, Adam e ele mesmo se tinham tornado naquele dia portugueses. Agradecendo a hospitalidade, a forma como foram recebidos pelo Presidente da República.
Love Peace or Else, a banda branca, COEXIST, lembrava as questões religiosas, a lua muçulmana, o selo de Salomão judaico e o crucifixo cristão, se tudo cabe numa mesma palavra, porque não coexistir no sentido literal.
Continuavam as grandes malhas, hinos de sempre, New Year’s Day, I Still Haven’t Found What I’m Looking For, Sunday Bloody Sunday/Bullet the Blue Sky, Pride, Where The Streets Have No Name e With or Without You.
Foi em Sunday Bloody Sunday que Larry tomou o protagonismo da sua bela batida e foi para a passadeira onde Bono acabaria por também fazer o gostinho ao dedo.
Miracle Drug com dedicatória especial, o Hospital Pediátrico de Dona Estefânia em Lisboa, ao médicos e enfermeiras que ajudam o nosso futuro, as crianças. A dedicatória acabou por ser especialmente para as enfermeiras segundo me deu a pareceu pelo meio das palmas e do rubro dos fãs (Bono seu levado da breca!!! EHEHE).
Sometimes You Can’t Make It On Your Own, deixou muita gente com a lagrimazita no canto do olho, um momento de grande emotividade, por muito que tente é impossível descrever, é um momento intimista onde parece que estamos por momentos a sós com a banda.
Outro grande momento foi Miss Sarajevo, já todos sabem a mensagem por detrás da música a eterna luta pela concórdia dos povos, ao desenvolvimento espiritual, os ciclos da vida, podiam perguntar a várias pessoas que para cada uma seria diferente, é essa a magia, e que foi dedicada às vitimas dos ataques terroristas em Londres, Turquia e Egipto, e onde Bono se atreveu a cantar à la senhor Pavarotti. Acho que tenho vindo sempre a destacar os monumentais efeitos de luz, multimédia que, apesar de menos ‘espalhafatosos’ que em digressões anteriores, cumprem o seu efeito, a directa passagem de mensagens políticas. Acho que no caso de Miss Sarajevo cumpriu o seu papel passando, se não me engano seis artigos da Declaração dos Direitos Humanos, que mereceu a ovação dos presentes.
One, outro grande momento, foi pedido por Bono a todos os 52 mil presentes que pegassem no seu telemóvel e ligassem a luz (o efeito foi esplendoroso) mas não era apenas pelo efeito do luz que iria provocar, era pela mensagem que poderiam enviar ajudando o continente africano e o movimento Pobreza Zero, foi nesta altura que Bono pede para que sejamos interventivos junto dos políticos, junto de Sócrates em relação ao continente Africano e à ajuda prestada.
O encore foi preenchido com Zoo Station, Bono surgia com um ar muito militar com o seu chapéu, mais uma vez num efeito de luz, e vídeo que são fabulosos, simplesmente fabulosos, e que continuaram com The Fly, num ambiente que, apesar da música, se tornara um pouco mais calmo, provavelmente tudo com pena que aquela noite acabasse, ou simplesmente porque Zoo Station e The Fly fazem parte à vertente mais experimentalista dos U2, um período de exageros e ironias, onde literalmente eles fizeram da expressão push the envelope, a sua máxima e que culminaria depois com PopMart (Pop que foi mesmo abolido da setlist), mas que contudo levaram o mesmo tratamento em relação à sonoridade que parecia agradar mais os fãs, as músicas mais cruas como foram os grandes clássicos (detesto a expressão mas é uma verdade) da banda.
All Because of You e Yahweh vieram dar um fôlego de fim de festa quase para partir tudo, e terminaram com uma dedicatória especial, quase um presente por ser o final de tournée europeia, ao público sexy como Bono referiu, 40, também dedicada ao Presidente Jorge Sampaio como agradecimento da forma como foram recebidos.
Não acabou com Vertigo, nisso fomos diferentes, mas o encore foi também curtinho. 00.20, já todos se dirigiam para as saídas do Estádio de Alvalade, com saudades e ansiando pelo regresso.
A frase ‘saudades de Lisboa’ foi uma das mais marcantes, que tentou durante todo o concerto, que foi genial, estabelecer contacto com os fãs, levando mesmo ao palco uma sortuda durante With or Without You, que teve o prazer que cumprimentar Bono.
Bono disse que a festa de final de digressão ficou marcada para Lisboa, e com um público daqueles, acho que ficaram bem servidos. Que venha o próximo.
Com tudo isto e milhentos pormenores que me vão escapando, deixo-vos a setlist.
VERTIGO TOUR 05 – Lisboa, 14 de Agosto
Vertigo
I Will Follow
Electric Co.
Elevation
New Year's Day
Beautiful Day/"Sgt Peppers"/"Black Bird"( Beatles)
I Still Haven't Found What I'm Looking For
City of Blinding Lights
Miracle Drug
Sometimes You Can't Make It On Your Own
Love and Peace or Else
Sunday, Bloody Sunday
Bullet the Blue Sky
Miss Sarajevo
Pride
Where the Streets Have No Name
One
Zoo Station
The Fly
With or Without You
All Because of You
Yahweh
40
Publicado por Inês às agosto 17, 2005 11:41 PM
Comentários
Welcome back Inês de Portugal :).
Melhor que o Blitz!
Publicado por: Golfinho
em agosto 18, 2005 12:20 AM
Muito, mas mesmo muito obrigado Inês. Isto merecia estar numa NME ou numa Rolling Stone. É um relato que nos transporta para lá. Parabéns! já pensaste ser jornalista?
Um beijo.
Publicado por: DavidDiogo
em agosto 21, 2005 07:44 PM
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