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junho 28, 2005

"O FILHO DE JOAQUIM"

Dizia o Pastor:

-Para chegar ao paraíso dobre a próxima esquina à direita e
siga reto vendo as linhas de concreto e luz passarem pelos teus
olhos. Finge que morre. Finge que vive. Finge que se diverte.
Finge que finge e ouve música barulhenta.

Um dos membros da igreja falou:

-Fica noites sem dormir e ainda assim quer sonhar. Não
sabe o que diz. Não sabe o que quer. Não sabe o que sabe. E não
sabe de nada! Finge que finge que finge que finge que finge e
não sabe de nada.
Todos fiéis ficaram calados olhando uns aos outros. Quem
seria Judas? Quem seria Pedro?

Irrompeu do silêncio o barulho do fumo de corda que caiu
do bolso do paletó do puritano que ao levantar-se, olhou nos
olhos de cada um dos presentes e disse:

- Vocês não sabem de nada.
Foi embora com um sorriso nos lábios.

Só uma pessoa falou sobre isso depois. É que a imprensa da
época tinha medo do que haveria de acontecer depois, porque o
tal do Joaquim era poeta e sabia falar bonito. Ele só não sabia de
nada. É desses que dizem que sabem que sabem e que querem
mostrar que sabem que sabem que sabem que dizem o que
sabem. Mas na verdade é tudo mentira o que sabem. Eles não
sabem de nada!

Quando o filho do puritano teve que ir à escola ele não quis
aprender o que ensinavam. Tava todo mundo concentrado e
copiando a lição que a professora passava na lousa e acho que só
Jocelina que o viu levantar-se e sair correndo para se jogar na
lousa feito massa de bolo. Ele ficou em coma por dois dias e duas
noites e em seu sono encontrou Deus face a face. Não tinham
nada para conversar. Então ficaram um olhando pra cara do
outro.

Acho que se ele soubesse que seria a última vez que veria
Deus teria feito algo melhor. Mas não sabia. Quem sabe dessas
coisas? Ninguém sabe dessas coisas!

E aí acordou outra vez. E dormiu e acordou. E no terceiro
dia renasceu.

Do livro "Outras Estórias", da minha autoria, publicado em "Sete Peixes"

Publicado por Eskimo às junho 28, 2005 09:45 PM