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junho 28, 2005
COM O FLAUTISTA NO PORTAL DO AMANHECER
Sempre fica lá com cara de quem está pensando em algo.
Sempre calado, mudo, meditando sobre a vida. Sempre está lá
sozinho, esperando o sol nascer.
(mas ele sempre dorme antes do dia clarear).
Disse que vai fugir, vai lá pra longe onde nunca ninguém foi.
Disse que quer ver se encontra um lugar bom pra ver o sol
nascer. Na verdade não disse nada, mas foi o que achei que ele
queria dizer pelo jeito que assoviava olhando o chão.
(era uma bonita música).
Às vezes saía para andar pela cidade, parando em cada
ponto de ônibus para ver os carros passarem junto com o tempo.
E ficava assoviando. Ele nem sabia porque gostava de ficar lá
olhando pra nada. Às vezes sentia que estava esperando por algo
ou alguém, mas na verdade ele nunca sabia explicar essas coisas.
E também ninguém mais podia explicar, porque ninguém nunca
sabe ou quer saber de qualquer coisa.
(mas alguns sabem fazer contas).
Ele nem achava tão ruim ficar lá e às vezes até escapava um
sorriso estranho e sem sentido. E continuava sem saber de nada.
Mas ele sentia que era diferente, porque ele queria saber. Ele
queria saber de onde vinham os ventos. Achava que fosse coisa
dos pássaros batendo as asas no céu. Ou então era o sopro da
lua. Ou do sol. Ou talvez fosse o suspiro de uma princesa em um
reino distante.
Nunca falava nada, mas chegou para mim e perguntou de
onde vinham os ventos. Disse que eu não fazia idéia, mas que
talvez ele encontraria a resposta na escola. Foi lá pra entender.
Mas aí ele ficou sentado numa sala cheia de gente estranha e lá
na frente tinha um cara de óculos, barbudo, disse que o vento
era "o movimento do ar ocasionado pelas diferenças de
temperatura nas várias regiões atmosféricas". Aí ele não
entendeu nada e decidiu aprender a tocar flauta e fazer música
com o vento. Talvez assim conseguiria chamar um pássaro que o
levasse até a princesa e então daria a ela o sol e a lua.
(mas quando tocou lá na praça nenhum pássaro veio cantar
com ele).
Jogou a flauta no lixo e saiu para caminhar sozinho mesmo.
Chutou uma lata, cuspiu no chão, enfiou as mãos no bolso e
achou noventa centavos. Comprou um sorvete e depois foi lá pra
cima pra esperar o sol nascer. Mas acabou dormindo antes do dia
clarear.
Do livro "Outras Estórias", da minha autoria, publicado em "Sete Peixes"
Publicado por Eskimo às junho 28, 2005 10:35 PM